Poesia do dia – Escrita crônica!

Os encontros na escadaria

Era final de junho, as férias se aproximavam e embora nunca tivessem conversado já haviam dito mais do que a boca falaria em décadas com as trocas de olhares que aconteciam na escadaria da faculdade.  Nunca subiam ou desciam juntos, geralmente os caminhos se cruzavam entre a subida de um e a descida do outro. Foi um ano inteiro de olhares cruzados e sensações não ditas.

Durante a última semana de provas o formidável aconteceu, ela havia perdido a prova de estatística, pois a avó faleceu no mesmo dia e ele não conseguiu chegar a tempo do trabalho para a prova de matemática. Por coincidência, ou não, o professor era o mesmo e decidiu aplicar as provas substitutivas das matérias no mesmo dia e sala.

Ao entrar na sala ela sentiu que o mundo caíra sobre sua cabecinha redonda e seu rabo de cavalo desgranhado, quase perdera o ônibus na tentativa de ajeitá-lo. Sentou-se longe, mas onde não o perderia de vista. Suspirou fundo.

Ele, exultando de alegria, sentiu que era sua única chance de falar com a moça que tomava-lhe os pensamentos, ainda que a visse 5 segundos por dia. Mesmo não sabendo a matéria toda, foi muito bem e fez de tudo para sair mais cedo com o intuito de esperá-la em frente a sala. Assim fez.

10 minutos de espera e o nariz pontilhado de sardas castanhas apontou na porta. Se ajeitou, desenroscou o nó da garganta e disse um “olá” um tanto quanto rouco. Talvez fosse a exultação. A moça respondeu um “Oi” tão aconchegante que ele não hesitou em ir logo ao ponto onde queria chegar.  Marcaram encontro nas escadarias do parque, depois foram ao cinema.

Hoje passam as horas vendo os netos brincarem nas escadas da casa construída ao som dos olhares mais silenciosos e profundos que ainda se buscam, se cruzam, sorriem.

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Poesia do dia – Livro!

Se tem uma coisa que amo é visitar livrarias e sebos, ainda que eu não vá comprar nada, o fato de estar em meio a tantas ideias, histórias e gente que colocou no papel  os mais diversos sentimentos me encanta por absoluto.

Um dia desses me perdendo nas prateleiras de um sebo, cheio de livros com aquele cheiro de folha velha e marrom, que para mim é tão maravilhoso como o cheiro de chocolate, me deparei com o Sr. Érico Veríssimo me dando “olá” com um livro  muito sugestivo. O fulaninho era a obra “Música ao longe”. Li a sinopse, gostei. Já tinha gostado da capa, do cheiro e do jeito, me restou levá-lo pra casa.

Por conta da correria dos meus dias demorei mais tempo do que gostaria para lê-lo, como de costume, mas cada vez que pegava o livro para mergulhar em suas páginas datilografadas era como se estivesse abraçando as personagens. Coisa Linda!

Por fim, ele faz parte da minha lista de romances nada  convencionais. Trata-se da história de uma família tradicional de Rio Grande, na década de 30, que perdeu muitos de seus bens e a cada dia afundava, seu tão prestigiado sobrenome, na falência material. No meio disso tudo a jovem professora Clarissa tentava se encontrar, contrariando e questionando pensamentos tradicionais da época e o julgamento das pessoas sobre as coisas fúteis que importavam a elas, a menina se sentia como um peixe fora do aquário. Para deixar a história ainda mais envolvente, aos poucos ela descobre que ama seu primo Vasco, ovelha negra da família. O título do livro faz referência a essa confusão de sentires de Clarissa, que fica muito explícito no trecho:

“O amor que ainda não se definiu é como uma melodia de desenho incerto. Deixa o coração a um tempo alegre e perturbado  e tem o encanto fugido e misterioso de uma música ao longe”.

Além disso, a história conta com a presença de muitos personagens especiais que nos levam a refletir sobre a importância da simplicidade e do amor. É um clássico da literatura brasileira que recomendo e aplaudo em pé.

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Poesia do dia – Escrita crônica!

Para além do quando , agora.

Acordei sem tempo de abrir os olhos, os ouvidos sentiram e o coração correu escada à baixo com as pernas trêmulas, sem acreditar. Ao pé da escada minha gente pranteava o ardor da perda. Esperançávamos  o amanhã com vara de pesca, sorrisos e longos churrascos de domingo na churrasqueira reformada há pouco.  Nesta manhã, só me restou o agora.

Não compreendo, se quer aceito a mesquinharia da vida. Rouba cinco décadas de uma vida construída com cuidado e amor, num suspiro doloroso e rápido. Enquanto alguém levava o café quente à boca nesta manhã, uma vida se apagou. A revolta que cresce em meu peito, o turbilhão de pensamentos insanos e descrentes que brotam do profundo da alma me anestesiam. Sem respirar, as lágrimas escorrem e o peito arde. Abraço por abraço, o dia parece se arrastar  e o relógio se espreguiça, sem pressa de ver o  ponteiro correr seu corpo. Os minutos parecem horas.

A terra encobre toda uma vida. Vida que deixou seu legado de coragem para enfrentar o novo e curar o velho, de enfrentar a dor com alegria pra ver o sorriso do outro, de colocar à frente os planos dos queridos  e deixar os próprios para amanhã ou depois, de entregar o orgulho para ser tratado por quem o criou. Vida que deixou a esperança de reencontro para além do quando, mas para agora apenas a saudade.

                                                    flying-bird

Poesia do dia – Escrita crônica!

Sobre a floreira na janela

 Sentada ao pé da escada de nossa varanda, respirei por um momento e observei as marcas do tempo nas mãos e as marcas de todo amor na alma, em memória. Vejo agora quanto sonho vivi, quantos pesadelos enfrentamos com alegria e mansidão. Levamos a brandura do céu no peito e candura dos anjos nos olhos, soubemos levar todos os anos de amor e tardes de bolo de cenoura, quentes como a própria cobertura de chocolate que nos deliciava, doce viver.

E agora, no vazio da casa, no longo miar do felino amigo, no café que esfria rápido demais sem seu sorriso, nos casacos do armário com  seu cheiro de alegria, nas brechas de sol que invadem a sala e tocam as teclas de seu piano e não soam a mesma música, sinto seu vazio em todo canto. Mas quando olho a floreira na nossa janela, me arde o peito.

Sonho de criança era ter sementes nascendo sob os olhos, sem perder as nuances da vida da primavera, esperando para celebrar as cores me  dando bom dia. E numa tarde de setembro, chegando em casa depois de um árduo dia de trabalho, me deparei com um ser pintado de terra e envolto de suor, exalando amor. Corri pros teus braços, naquela noite dormimos alí mesmo, sob a luz da lua e o cheiro de terra da floreira. Te observei dormir, como menino que havia brincado na caixa de areia o dia todo.

Me restou a varanda descascada para lembrar, o amor, a floreira. Restou você todo em mim.

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Poesia do dia – Texto!

A reflexão que venho trazer hoje é sobre um texto de Rubem Alves  que fala sobre a nossa escassa capacidade de ouvir. Tenho observado que as pessoas sentem pressa ao falar, como se o outro não tivesse paciência para ouvi-las. Eu sinto isso, às vezes faço isso. Parece que você precisa estar demasiadamente empolgado para prender a atenção de alguém, ou então os ouvidos fogem junto com o olhos para algo mais interessante. Não há insistência em aprender o que o outro pode nos oferecer. Não desenvolvemos a capacidade de ouvir,  isso exige silêncio, e o turbilhão de coisas que pensamos saber é barulhento o bastante para não nos permitir ouvir.

Escutatória

Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar… Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro que… Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.  É preciso também não ter filosofia nenhuma.

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.

Daí a dificuldade:

A gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor…Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.

Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração…E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.No fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64, contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.

Vejam a semelhança…Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio…Abrindo vazios de silêncio… Expulsando todas as idéias estranhas.

Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.

Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos…Pensamentos que ele julgava essenciais.

São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir… São duas as possibilidades.

Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou.

Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.

Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo, é coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou. E, assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência…E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras… No lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Esse texto faz parte do livro de crônicas: Rubem Alves. O amor que acende a lua.