Poesia do dia – escrita crônica!

O café
Desperta do sonho, do sono, abre os olhos e toca o chão frio pela primeira vez no dia. Que honra!
Do quarto para a cozinha, a água no fogo, ainda sem borbulhar, pensa no que fará e no que fez. 1, 2, 3 colheres de café, depositadas delicadamente no suporte que sustentará a deliciosa mistura entre o calor e o aroma. Olha para fora, dá bom dia para a vida.
Pela manhã, esse é o seu ritual preferido. Sabe que o líquido quente trará vida aquele que ela ama, como uma poção mágica. Faz do café seu feitiço diário. Sua prece de paz para o dia.
De volta ao quarto, observa a beleza do amor a sonhar, tem pena, acorda-o com beijos, bom dias e uma dose de café quente. Recebe um sorriso, retribui se deixando envolver no calor do recém despertado. Dois minutos acolhida em ternura, que parecem sua vida inteira.
Toda a manhã tem o calor do café, toda manhã tem o cheiro do bom dia, toda manhã tem sabor do acolhimento e do amor, logo cedo. E é assim que ela gosta de acordar pra vida, é assim que ela espera ser todos os dias. Manhãs de café.

 

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Marcela Camargo

Poesia do dia – Escrita crônica!

O doce andar da mudança

Lá vem ela, toda desencanada, andando manso e firme pelos caminhos alheios. Arrebentando as convicções, transformando opiniões, fazendo um auê na vida de quem cogita a ideia de tê-la por perto. Sim! Só de pensar nela todas as coisas perdem um pouco de sentido e precisam recomeçar. Senhorita Mudança, essa moça avassaladora que odeia deixar pedra sobre pedra.

Vez ou outra ela se depara com muralhas difíceis de serem derrubadas, histórias de gente que se fecha para a sua entrada e cria uma dura camada de mesmice ao longo da vida. Para essas pessoas o primeiro encontro com ela é sempre assustador, doloroso, desconfortável. Depois de algum tempo  acostuma-se, e aí? ela volta!

Cheia de pompa, se intromete na calmaria, tira o sono e prega peças. Doida varrida, essa senhorita não tem dono e nem dó. Faz e desfaz os nós que a vida dá. Tece novos caminhos, nos pega pela mão e nos leva para onde precisamos estar.

Essa moça abusada é nossa aliada, deixa ela entrar. Apesar da bagunça, ela faz de tudo pra ajeitar as coisas. Não evite-a, dê uma volta com ela. Não dá pra fugir, deixa ela caminhar, vai com ela. Deixa ela te levar.

 

Marcela Camargo

Poesia do dia – Escrita crônica!

Os encontros na escadaria

Era final de junho, as férias se aproximavam e embora nunca tivessem conversado já haviam dito mais do que a boca falaria em décadas com as trocas de olhares que aconteciam na escadaria da faculdade.  Nunca subiam ou desciam juntos, geralmente os caminhos se cruzavam entre a subida de um e a descida do outro. Foi um ano inteiro de olhares cruzados e sensações não ditas.

Durante a última semana de provas o formidável aconteceu, ela havia perdido a prova de estatística, pois a avó faleceu no mesmo dia e ele não conseguiu chegar a tempo do trabalho para a prova de matemática. Por coincidência, ou não, o professor era o mesmo e decidiu aplicar as provas substitutivas das matérias no mesmo dia e sala.

Ao entrar na sala ela sentiu que o mundo caíra sobre sua cabecinha redonda e seu rabo de cavalo desgranhado, quase perdera o ônibus na tentativa de ajeitá-lo. Sentou-se longe, mas onde não o perderia de vista. Suspirou fundo.

Ele, exultando de alegria, sentiu que era sua única chance de falar com a moça que tomava-lhe os pensamentos, ainda que a visse 5 segundos por dia. Mesmo não sabendo a matéria toda, foi muito bem e fez de tudo para sair mais cedo com o intuito de esperá-la em frente a sala. Assim fez.

10 minutos de espera e o nariz pontilhado de sardas castanhas apontou na porta. Se ajeitou, desenroscou o nó da garganta e disse um “olá” um tanto quanto rouco. Talvez fosse a exultação. A moça respondeu um “Oi” tão aconchegante que ele não hesitou em ir logo ao ponto onde queria chegar.  Marcaram encontro nas escadarias do parque, depois foram ao cinema.

Hoje passam as horas vendo os netos brincarem nas escadas da casa construída ao som dos olhares mais silenciosos e profundos que ainda se buscam, se cruzam, sorriem.

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Poesia do dia – Livro!

Se tem uma coisa que amo é visitar livrarias e sebos, ainda que eu não vá comprar nada, o fato de estar em meio a tantas ideias, histórias e gente que colocou no papel  os mais diversos sentimentos me encanta por absoluto.

Um dia desses me perdendo nas prateleiras de um sebo, cheio de livros com aquele cheiro de folha velha e marrom, que para mim é tão maravilhoso como o cheiro de chocolate, me deparei com o Sr. Érico Veríssimo me dando “olá” com um livro  muito sugestivo. O fulaninho era a obra “Música ao longe”. Li a sinopse, gostei. Já tinha gostado da capa, do cheiro e do jeito, me restou levá-lo pra casa.

Por conta da correria dos meus dias demorei mais tempo do que gostaria para lê-lo, como de costume, mas cada vez que pegava o livro para mergulhar em suas páginas datilografadas era como se estivesse abraçando as personagens. Coisa Linda!

Por fim, ele faz parte da minha lista de romances nada  convencionais. Trata-se da história de uma família tradicional de Rio Grande, na década de 30, que perdeu muitos de seus bens e a cada dia afundava, seu tão prestigiado sobrenome, na falência material. No meio disso tudo a jovem professora Clarissa tentava se encontrar, contrariando e questionando pensamentos tradicionais da época e o julgamento das pessoas sobre as coisas fúteis que importavam a elas, a menina se sentia como um peixe fora do aquário. Para deixar a história ainda mais envolvente, aos poucos ela descobre que ama seu primo Vasco, ovelha negra da família. O título do livro faz referência a essa confusão de sentires de Clarissa, que fica muito explícito no trecho:

“O amor que ainda não se definiu é como uma melodia de desenho incerto. Deixa o coração a um tempo alegre e perturbado  e tem o encanto fugido e misterioso de uma música ao longe”.

Além disso, a história conta com a presença de muitos personagens especiais que nos levam a refletir sobre a importância da simplicidade e do amor. É um clássico da literatura brasileira que recomendo e aplaudo em pé.

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Poesia do dia – Escrita crônica!

Para além do quando , agora.

Acordei sem tempo de abrir os olhos, os ouvidos sentiram e o coração correu escada à baixo com as pernas trêmulas, sem acreditar. Ao pé da escada minha gente pranteava o ardor da perda. Esperançávamos  o amanhã com vara de pesca, sorrisos e longos churrascos de domingo na churrasqueira reformada há pouco.  Nesta manhã, só me restou o agora.

Não compreendo, se quer aceito a mesquinharia da vida. Rouba cinco décadas de uma vida construída com cuidado e amor, num suspiro doloroso e rápido. Enquanto alguém levava o café quente à boca nesta manhã, uma vida se apagou. A revolta que cresce em meu peito, o turbilhão de pensamentos insanos e descrentes que brotam do profundo da alma me anestesiam. Sem respirar, as lágrimas escorrem e o peito arde. Abraço por abraço, o dia parece se arrastar  e o relógio se espreguiça, sem pressa de ver o  ponteiro correr seu corpo. Os minutos parecem horas.

A terra encobre toda uma vida. Vida que deixou seu legado de coragem para enfrentar o novo e curar o velho, de enfrentar a dor com alegria pra ver o sorriso do outro, de colocar à frente os planos dos queridos  e deixar os próprios para amanhã ou depois, de entregar o orgulho para ser tratado por quem o criou. Vida que deixou a esperança de reencontro para além do quando, mas para agora apenas a saudade.

                                                    flying-bird